• Bernardo Victor Silva de Andrade

CATAR E A CONSTRUÇÃO CIVIL: INOVAÇÕES E CONTROVÉRSIAS QUE ARQUITETAM A COPA DO MUNDO DE 2022

“País do futebol”. Um dos apelidos de nossa nação. E goste do esporte ou não, o brasileiro torce e se vislumbra junto da seleção, de quatro em quatro anos.

No dia 21 de novembro do ano que se passou, o mundo voltou os olhos para a península árabe: o país sede da próxima Copa do Mundo de Futebol, o Catar, inaugurou um relógio de contagem regressiva, há um ano exato para o começo da competição em solo desértico banhado pelo Golfo Pérsico/Árabe. A décima segunda edição da Copa, que irá se realizar em dezembro - devido às altas temperaturas do verão árabe em julho- , já conta com quase todos os estádios sede concluídos. Além disso, é claro, com nossa seleção brasileira já classificada! Então bora ver o que tem por trás de toda preparação dessas obras faustosas e, além de toda a inovação da construção civil, o que tem rolado nos bastidores dos preparativos de uma das maiores competições esportivas do mundo!


Estádios sede

Desde que se tornou país sede da futura Copa, o Catar se alinhou com quatro palavras-chave para a construção de toda a infraestrutura da competição: legado, conforto, acessibilidade e sustentabilidade. A ideia é, de acordo com Hassan Al Thawadi, chefe executivo do órgão responsável pelos processos de preparação, obter um certificado especial do chamado GSAS - em tradução livre, Sistema Global de Avaliação de Sustentabilidade - para todos seus estádios, garantindo assim, esse selo de inovação. Isso tudo, a partir de tecnologias como o resfriamento sustentável dos mesmos, uso de equipamentos e materiais reciclados e ecologicamente corretos e demais soluções sustentáveis. Vejamos alguns desses exemplos, em seis dos oito estádios até então construídos:


Al Bayt Stadium

Tendo sua abertura realizada em 2018 e, posteriormente, ganhando os certificados de sustentabilidade em 2020, o estádio com capacidade para 60 mil pessoas recebeu um design inspirado em tendas tradicionais utilizadas pelos povos nômades da região do Golfo. Além de referenciar esse legado, o design somado ao sistema de teto retrátil ajuda a manter um sombreamento e temperaturas confortáveis dentro do estádio, sem uso de energia extra. Após 2022, grande parte das arquibancadas serão removidas para serem doadas para outros locais que carecem de investimento em esporte. O átrio superior, portanto, será convertido em diversas instalações futuras - shopping center, praças de alimentação, academia, salões, uma filial de hospital esportivo e até mesmo um hotel cinco estrelas!

Imagem: Divulgação/Qatar 2022


A construção do estádio foi uma colaboração entre diversas empresas: a empreiteira Catar Galfar Al Misnad, em colaboração com as italianas Salini Impregilo Group e Cimola. Outros muitos participaram do paisagismo, entrega do projeto e supervisão da obra.


Al Rayyan Stadium


Também chamado de Estádio Ahmed bin Ali, existe desde 2003 e foi extensamente demolido ao passar pela reforma que o garantiu uma capacidade para 40 mil pessoas. Após o evento, o mesmo processo do estádio acima irá acontecer: uma redução de 20 mil módulos de arquibancada a serem doados. Emblemático, se situa na maior cidade do Catar em seu design ondulado e iluminado, complementado por edifícios circulares em forma de dunas do deserto. Um moderno sistema de arrefecimento ecologicamente correto também irá manter a temperatura interna regulada entre 24 a 28 graus.


Imagem: Divulgação/Qatar 2022


Thumama Stadium

Esse estádio de capacidade para 40 mil pessoas - que também passará pelo processo de redução para doação - tem seu design inspirado no “gahfiya”, uma espécie de chapéu árabe utilizado por homens do país. Inaugurado em outubro deste ano, o estádio ainda recebeu seu nome em homenagem a uma árvore famosa encontrada em seu entorno, na cidade de Doha. Após a redução, um hotel-boutique com vista para o campo será incrementado em seu interior. A obra, que saiu das mãos do arquiteto catariano Ibrahim M. Jaidah, foi realizada através de um acordo entre as construtoras Al Jaber Engineering do Catar e a Tekfen Construction da Turquia. Desde o começo, o estádio conta com soluções modernas para sustentabilidade com foco na economia de água e energia em sua construção.


Imagem: Ai Kagou/Flickr


Al Wakrah Stadium

Com um design pós-modernista/neo-futurista curvilíneo, inspirado nos Dhow - barcos à vela catarianos utilizados na pesca de pérolas - o estádio na costa do Golfo, ao sul de Doha, foi inaugurado em 2019. Foi projetado pela equipe de arquitetos Zaha Hadid. Contando com 40 mil lugares, que também irão ser reduzidos e doados após a Copa, o estádio com design futurista que saúda o mar do Golfo teve seu telhado icônico executado com madeira de reflorestamento. O formato ainda colabora com o sistema de arrefecimento, garantindo uma aerodinâmica que ajuda no controle natural da temperatura. Além disso, a obra conta com um sistema próprio de geração de energia limpa, reformulação de estradas de acesso vindas de Doha e nova linha de metrô, de forma a reduzir a emissão de carbono. O estádio também já recebeu o selo sustentável da GSAS.


Imagem: supreme committee for delivery & legacy/Qatar 2022


Khalifa International Stadium


Esse estádio é um dos três que já existiam antes do país se tornar sede, sendo o local principal de realização de jogos da seleção do Catar. Já sofreu outras reformas para receber finais de competições continentais asiáticas. Suas reformas para a Copa começaram em 2014, contando com a instalação de uma grande membrana que cobre 70% do estádio de capacidade para 40 mil pessoas , feita com material sustentável. O estádio recebeu o selo da GSAS em 2017, sendo o primeiro do mundo a realizar esse feito. Para evitar casos de “elefante branco”, o país pretende continuar fazendo dessa arena “host” a principal para eventos grandes, como uma futura Olimpíada de Verão.


Imagem: Divulgação/Qatar 2022


Lusail City e Iconic Stadium


Aqui entramos em algo especial e ousado: o estádio Lusail, o maior em termos de capacidade (80 mil pessoas), que irá sediar os jogos de abertura e a final da Copa do Mundo em 2022. No entanto, o que impressiona é o fato de estar construído em uma cidade do século XXI, ou seja, uma recém-construída Lusail. A cidade ao norte de Doha, surgiu do zero através do deserto e muito empreendedorismo, podendo, no futuro, ser casa para mais de 200 mil habitantes com suas marinas, parques, áreas de negócio e o maior estádio da Copa, significando um legado de sustentabilidade e progresso do Catar em grande escala. A cidade inteira pretende atingir o selo da GSAS, promovendo sustentabilidade e inovação em diversas áreas como transportes - uma extensa linha de metrô, táxis aquáticos, diminuição de tráfico de carros, aumento de transportes públicos -, cultura - com construções pensadas para representar a história do país -, uso de água - reduzindo o consumo, promovendo uma cultura de poluição zero - e energia - projetando os edifícios de forma a diminuir seu consumo de energia, aplicando energia limpa - tudo isso com o uso de materiais locais e sustentáveis/reciclados, diminuindo a pegada de carbono na construção. Impressionante!

O estádio, que será inaugurado em 2022, teve design projetado pelas empresas Foster + Partners e Manica Architecture. Pode contar com uma geração de energia verde própria que também deve alimentar os edifícios ao seu redor.


Imagens: Divulgação/Qatar 2022


Controvérsias


Nos últimos anos que precedem a copa, o Catar recebeu diversas críticas sobre as condições trabalhistas por trás de todo esse espetáculo de sustentabilidade e inovação e acerca de dúvidas sobre as condições do país em se adequar no acolhimento mundial como sede, além de alegações sobre suborno no processo de eleição, de acordo com diversas agências de comunicação.

De acordo com a imprensa especializada, como o jornal The Guardian da Inglaterra, a mão de obra utilizada em toda preparação foi estrangeira e barata - principalmente vinda da Índia e Nepal -, colocada em condições de trabalho que por muitas vezes feriam diversos direitos humanos, com pagamento ínfimo. Houve a alegação de mais de 1.200 mortos diretamente ligados às construções dentro do país, número este que chegou até a Anistia Internacional, que fez duras críticas ao país. Vários movimentos de boicote começaram a pipocar no cenário mundial do futebol, inclusive dentro de seleções que hoje já estão classificadas.

No que diz respeito às condições culturais do país, os órgãos ligados à organização da Copa se preocupam com a cultura rígida do país, que é baseada na Sharia Islâmica. Essa cultura inclui desde a proibição do consumo de álcool em público até a proibição de pessoas da comunidade LGBTQ+, o que causou grande medo até por parte dos jogadores. Além disso, o clima escaldante do deserto árabe ainda é um grande problema, mesmo com todo preparo de arrefecimento dos estádios. Mudar a Copa do Mundo de data, por esse motivo, foi algo fora da curva e que tem gerado grande agitação.


Conclusão


Apesar de todas as controvérsias ligadas ao evento, ressaltamos que toda a construção civil e arquitetura que foi aplicada em todos esses anos de preparo, baseadas em princípios tão augustos e atuais - como a sustentabilidade, inovação e qualidade de vida - valorizem o espírito humano. Que não sejam apenas os engenheiros, arquitetos, financiadores e líderes de Estado a fazerem parte de todas essas obras, a serem lembrados e exaltados, mas também todos os trabalhadores da área da construção civil, de uma forma digna. Que possamos, no ano que vem, celebrar a união e respeitar a cultura humana como um todo, fazendo com que essa celebração do “beautiful game” - que é também meu esporte favorito - seja marcante e nos traga um grande campeão.


Referências


HAYAJNEH, Abdelnaser Zeyad, ELBARRAWY, Hassan, ELSHAZLY, Yassin, RASHID. Football and Sustainability in the Desert, Qatar 2022 Green World Cup’s Stadiums: Legal Perspective, 2017. European Journal of Social Sciences, Vol. 55, No 4, Dezembro, 2017, p. 475-493 Disponível em: https://papers.ssrn.com/sol3/papers.cfm?abstract_id=3096185. Acesso em: 26 nov. 2021.


CARVALHO, Fabrício. Muito além das mortes: Controvérsias da Copa do Mundo no Catar são antigas. [S. l.], 30 mar. 2020. Disponível em: https://esportenewsmundo.com.br/conmebol-define-escala-dos-arbitros-para-as-partidas-entre-santos/4. Acesso em: 26 nov. 2021.


COELHO, Yaskara. Estádio em forma de “boné árabe” é inaugurado para a Copa do Mundo 2022. [S. l.], 18 nov. 2021. Disponível em: https://casacor.abril.com.br/arquitetura/estadio-em-forma-de-bone-arabe-e-inaugurado-para-a-copa-do-mundo-2022. Acesso em: 26 nov. 2021.


STADEGUIDE. Khalifa International Stadium. [S. l.], 2020. Disponível em: https://www.stadiumguide.com/khalifa-international-stadium. Acesso em: 21 jul. 2021.



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